
Levando a história à outro rumo, continuando o último parágrafo da sexta parte, pois depois daquele parágrafo a história toma dois caminhos que podem ser considerados paralelos...
Como eu citei antes, acho que foi no ano anterior que começaram os “maria-macho” e “sapatão”, porém eu não ligava muito. Mas não demorou muito para as coisas pro meu lado piorarem, e muito. Os apelidos e ofensas foram ficando mais freqüentes e cada vez piores, eu chegava a ser excluída de alguns jogos e brincadeiras nos recreios. Gente de outras salas e séries, principalmente os meninos, sempre que me viam falavam alguma coisa no ouvido dos amigos ou até mesmo aos quatro ventos...
O que eu fazia? Só mandá-los calarem a boca não era mais o suficiente, então tive que aprender a me defender. Ainda bem que aos 10 anos meninos e meninas não tem muita diferença com relação ao físico, tornando as agressões físicas o menor dos problemas. Na verdade, descobri uns anos depois, a duras penas, que para nos defendermos de um menino tem que ser no físico, e de uma menina no psicológico, mental... Como? Esta é história para outra hora. Mas enfim, tendo em mente que para os meninos pararem de me ofender eu tinha que ganhar deles em alguma coisa, ou até mesmo ameaçar batê-los, alguns constrangimentos foram evitados graças a minhas habilidades físicas e força maior que a da maioria deles, naquela época.
Não pense que uma coisa dessas é um absurdo, eu estava simplesmente me defendendo do que, para mim, era a maior ofensa de todas. Classificava isso tudo como xingamento, e o pior deles. Óbvio, nos círculos sociais em que eu vivia, que eram somente a família e a escola, o termo “sapatão”, por exemplo, era utilizado para denegrir a imagem da mulher. Um termo utilizado somente no sentido pejorativo e em tom de deboche. Utilizado simplesmente para humilhar. Assim como “bicha”, “viado”, “boiola”...
Sofri muito e negava até a morte. Sapatão na minha cabeça, e na cabeça dos que me rodeavam, era, e para alguns ignorantes ainda é, aquele ser asqueroso, repugnante. Nasceu mulher, mas tem inveja dos homens porque queria ser um deles. Mulher que não tem a capacidade de conquistar um homem, que não merece respeito algum. Mulher-macho, maria-macho, sapatão, sapata, lésbica, homossexual é, como meu pai sempre falou e não sei se um dia vai parar de falar, um aborto da natureza. Isso mesmo, ele usa exatamente estas palavras: aborto da natureza. Abominável! Detestável!
Uma doença, um absurdo. Não é certo, é anormal. Deus fez o homem para a mulher e a mulher para o homem, é a lei da natureza. Está na bíblia, Deus falou está falado! É imoral! Estamos no mundo somente com um propósito: reprodução! Nosso dever é difundir a raça humana!
Não é surpresa alguma que tudo isso veio de família italiana, mais do que preconceituosa, ignorante, cheia de dogmas católicos como crença... E o preconceito e ignorância de tal família não é só com homossexuais, claro que juntamente no topo da “Lista do Ódio” deles ainda estão os negros. E a lista não para por aí, os “pobres” também estão nela. Sem esquecer os outros povos e minorias do planeta. É, tive a sorte de nascer uma homossexual numa daquelas famílias bem tradicionais, mais do que conservadoras, em que tudo fora dos padrões de vida perfeita e modelo é execrável! O que é uma vida modelo, uma pessoa perfeita? Branca, claro. As mulheres? Casadas com um marido rico, um médico ou advogado, com filhos lindos e educados. Família digna de inveja. Separação? Nem pensar! “Não existe gente separada na minha família!”, diria minha avó.
Aparências? Claro que importam! O que os conhecidos vão pensar quando souberem que ela se separou do marido perfeito que a mãe pediu a Deus? O que os vizinhos vão pensar da mulher que já passou dos 30 e ainda não casou? Não pode! Tem que casar, constituir uma família! Imagine então um homossexual na família... Sem maiores comentários, faltam-me palavras para descrever tamanha indignação, e acho que não estou em um dia tão bom para proferir palavras contra tudo isso. Contra tanta ignorância...
Quando estiver em um dia melhor para isso, leia-se: com mais raiva disso tudo, você saberá, com certeza. Enquanto isso tento “terminar” de escrever as “Experiências de minha vida”, estou com pressa para isso... Por que? Preciso chegar nos dias de hoje para explicar melhor, não quero pular nada...
...
Ósculos e amplexos...

3 comentários:
oi super saudades.Parece que não está em um bom dia, tomare que sejá só impressão.
bjos e ate+
Fico feliz que você continue com os posts auto-biográficos!
\o/
Sabe, minha família é praticamente igual à sua (exceto pelo fato de não ser italiana). Tradicional, homofóbica, racista. Sem falar outros atributos mais tristes.
Acho (e tento acreditar) que as novas gerações tendem, aos poucos, a ser menos preconceituosas do que as antigas. E isso é bom.
Um abraço enorme!
Sempre acompanhando aqui ^^
- Marcel.
Nossa, na minha família as cosias são muito parecidas, "tá escrito na bíblia, é imoral, Deus criou o homem para a mulher e a mulher para o homem". Ouvi muito essas frases.
Eu adoro os seus posts, não demore tanto para escrever ^^
Beijoos
até mais.
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